quinta-feira, 3 de março de 2011

Conto de Cristiane Sobral - Cauterização

Conto publicado nos Cadernos Negros 32, Ed. Quilombhoje, São Paulo, 2009.

Cauterização. Um processo intensivo de reestruturação dos fios que promete a solução para os chamados "cabelos desapontados". Segundo o dicionário Aurélio, cauterizar tem vários significados, como “destruir” e “afligir, penalizar ao extremo”. Eis o paradoxo, pois segundo esta novidade dos salões, promissora na recuperação até dos mais baleados cabelos, a definição aceita é reestruturar. No caso da protagonista que conheceremos logo em seguida, prestem atenção a toda e qualquer tentativa de corrigir, utilizando meios energéticos. Para falar de reestruturação, vamos evocar a psicologia, que costuma relacionar cabelo a pensamento. Assim, mudanças e agressões capilares podem estar relacionadas com a percepção sobre si mesmo, e apontam para a tentativa de transformação a fim de satisfazer às cobranças de um padrão imposto pelo meio, que costuma reagir com exclusão diante das diferenças.

Desperdício
Socorro passou a tarde toda num salão de cabeleireiro onde gastou uma nota preta. Ou branca? Eis a contradição trágica. Perder tanto tempo cauterizando e alisando as madeixas no secador quente e na chapinha justamente em dia de chuva. Droga de temporal. Mesmo com o guarda-chuva e a capa de plástico, se não estiasse não haveria jeito de sair de casa mais tarde em grande estilo como pretendia, sem molhar o pixaim. Valeria o esforço. Chegar à festa com o cabelo duro era dar confiança àqueles que tinham tanto prazer em olhar gente como ela com desdém.

Disfarce
Com uma ajeitada caprichada no “bombril”, ninguém poderia dizer que Socorro tinha sangue negro. Ficava tudo muito natural. Pelo menos era nisso que acreditava. Procurava ser simpática com todos, já que seu lema era “a mulata é uma fabricação nacional, quem a deseja não corre perigo de pegar sua cor como quem pega uma doença”.
Mas atenção, Socorro não se considerava fútil, pelo contrário, afirmava ter objetivos de vida bem definidos. Desde que começou a brincar com “barbies” brancas alimentou o desejo de conquistar um marido clarinho como os galãs de novela, ou então parecidos com os príncipes arianos das histórias de contos de fada que lia. Uma vez promovida ao mundo adulto, aprendeu a jurar que quando menina era bem mais clarinha, e que, com o tempo, aliado às conseqüências do aquecimento global, foi escurecendo. Para remediar, não saía de casa sem o filtro solar fator 100.
Esta moçoila era muito religiosa e acreditava que Deus, na sua opinião um ser tão branco que chegava a ser transparente e invisível, o que muitas vezes dificultava a comunicação com os seus filhos, lhe daria um marido branco, pois Deus desejava o melhor para todos. Entretanto, era necessário passar por algumas provações. Acreditava que a negritude era um verdadeiro desafio para testar os escolhidos à salvação e por isso, somente com muita coragem e fé alcançaria a vitória. Este era um segredo guardado a sete chaves. Socorro acreditava no saber pelo sofrer.

Para o êxito do seu projeto de vida, depois de concretizado o tão sonhado casamento, católico como manda o figurino, e do papel passado, empenhar-se-ia em gerar um lindo filho branco de nariz afilado e olhos claros. Não era à toa que preferia definitivamente um rapaz. Meninos, mesmo com o cabelo ruim, poderiam passar uma existência inteira usando a cabeça raspada sem problemas.
Quem batalha merece progredir. Socorro era um exemplo de cidadã em busca de evolução. Pelo menos era o que aprendera nas entrelinhas da realidade apresentada como alternativa para pessoas como ela, que pretendiam conquistar o seu lugar, na sombra, por favor. Fazia a sua parte. Comia pouco para não engordar e ressaltar as nádegas e coxas protuberantes e evitava rodas de samba e cerimônias religiosas afro-brasileiras. Andar vestida toda de branco ou de vermelho nem pensar. Falava baixo, gesticulava com moderação e preferia ser discreta. Ao sorrir espontaneamente, mesmo entre amigos, evitava mostrar com exagero a sua arcada dentária. Tinha tudo haver com o seu sonho de deixar de ser uma mancha negra perante a sociedade e tornar-se elegante, transparente e invisível, é “claro”.
A caminho da badalada festa para a qual só foram convidadas pessoas “finas”, ela vestia um impecável modelito em tons pastéis para afinar a silhueta e driblar o seu biótipo negróide. No rosto, usava uma base líquida dois tons mais claros que a sua pele, sombra escura bem aplicada nos cantos do nariz para que parecesse afilado e um batom clarinho para disfarçar os lábios grossos. Suas pernas viviam diariamente aprisionadas sob o decreto implacável da meia calça branca.
De repente, enquanto dirigia o seu carro branco, Socorro foi brutalmente fechada no trânsito por um ônibus e insultada por um motorista, negro, desses muito apressados, que disse em tom de provocação:
- Ô negona barbeira, comprou carteira? Isto provocou Socorro, a ponto de levá-la a pensar pela primeira vez e furar o bloqueio globalizado dos seus neurônios ocupados com a parafernália dos modelos padronizados televisivos.
De súbito, saiu do carro, pronta para exigir os seus direitos de cidadã. Ela agora entendia que pior do que a violência só mesmo a passividade. Os passageiros, agitados, estavam preparados para um espetáculo, e por isso brigavam entre bolsas, ombros, cotovelos, pulsos, e mãos, pelos melhores lugares nas janelas do transporte público. A chuva gritava e batia no chão exigindo o protagonismo da situação.
Detalhe. Socorro estava tão transtornada que saíra do carro sem o guarda-chuva e a capa de plástico. Empurrava com fúria a porta do ônibus enquanto a chuva encharcava seu corpo. Socorro estava perdendo a cabeça, aquela cabeça branca que costumava usar de vez em quando para tentar sobreviver num mundo que insistia em propagar a crença de que “não existe negro”. Prestem atenção em toda e qualquer tentativa de corrigir, utilizando meios energéticos.
Num outro ângulo, o motorista, o Jorge, estava perplexo. O motorista enxergou Socorro, uma mulher completamente cauterizada, de um modo nunca antes visto. Pensou na realidade absurda de um homem negro que nunca encontrou uma mulher negra com quem pudesse casar, e ainda tinha que agüentar acusações injustas que diziam que ele preferia mulheres brancas. Jorge continuava solteiro porque não conseguia escolher entre uma branca original ou uma negra falsificada tentando ser branca. Branca original? Negra falsificada? Ainda não decidira se alguma dessas alternativas estava correta.
Os passageiros assistiam a tudo e reagiam das formas mais distintas. Uns apoiavam, outros nem queriam saber, alguns queriam chamar a polícia, outros aproveitavam para roubar, fazer propaganda, ler a bíblia em voz alta anunciando o fim dos tempos, comentar sobre a vida das celebridades, etc. A cena mais interessante mostrava o espanto da Socorro, que chorava baixinho, completamente chocada e assustada. Ela tentava disfarçar e ajeitar o cabelo encharcado sem conseguir, e então ficava cada vez mais nervosa. De repente, num movimento rápido e impulsivo, ela virou de costas e meteu a mão na bolsa. Os passageiros gritaram em coro:
- É uma arma!
Eis o clímax da história. Socorro tirou da bolsa uma tesoura pequena e começou a cortar todo o cabelo. Quanto mais cortava mais bonita ficava, mais serena, mais incrivelmente consciente. Para o espanto geral, pela primeira vez parecia uma mulher normal, completamente negra e linda. Suas pernas foram finalmente descobertas pela meia calça rasgada e o rosto não apresentava mais vestígios da maquiagem, desfeita pela força das águas. Socorro ficou paralisada. Sentia a dor indescritível do seu nascimento, vivia o seu mistério profundo.
Socorro voltou para o carro, e buzinou para o Jorge, que desceu imediatamente do ônibus deixando os passageiros atônitos. Os dois protagonizaram uma cena inesquecível, com um apaixonado beijo cheio de detalhes da vida real. Pausa longa. Socorro ligou o carro e partiu para uma nova vida com Jorge.
No último close que todo mundo viu, a multidão aplaudiu e pediu “bis”. Todo mundo começou a se beijar no ônibus e no meio da rua. A chuva sussurrou baixinho a algumas mulheres que ali estavam, e que voluntariamente, deixaram a água levar um pouco de liberdade para dentro da cabeça.
Restou a imagem meio desfocada do trocador, que pôde enfim realizar o seu maior sonho, o de dirigir um ônibus. Com espírito de prontidão, sentou ao volante, emocionado, e antes de dar a partida, fez uma oração silenciosa de arrependimento, na qual prometeu nunca mais contar piadas de negro. Será?

Um comentário:

  1. Nossa adorei!! A transformação dela é muito legal, a água levando toda a brancura do personagem, uma caricatura, caricatura de um outro desconhecido e o descobrimento de si. Parabéns...

    Cris Mare

    ResponderExcluir